segunda-feira, 8 de maio de 2017

Sinais da Simplicidade



Agora que sabeis o que é a simplicidade e quais os seus frutos, não gostaríeis de vos tornar "simples como as pombas"? Mas, por que sinais reconheceríeis que o sois? - Por quatro sinais principais.

O primeiro é a indiferença ao próprio êxito.

O que vos perturba, quando não vos saís bem de um empreendimento - quer se trate de uma obra no meio familiar, educação e futuro dos filhos, deveres para com o marido, direção da casa e dos empregados; quer de uma obra externa, esmolas, visitas aos pobres, apostolado, relações de família - o que vos entristece e vos desanima é falhar no objetivo que vos propusestes, objetivo legítimo, sem dúvida, mas humano. Visastes apenas ao resultado, ao êxito, à própria obra: faltou-vos a pureza de intenção.

Na verdade, se tivesse sido pura a vossa intenção, se antes de tudo houvésseis procurado o contentamento e a vontade de Deus, diríeis: Se Deus não quis esse resultado, também não o quero. Além disso, se trabalhei para Deus, se procurei agradar-Lhe, certamente venci, e Deus deve estar satisfeito porque fiz o que de mim dependia; o resto não estava em meu poder. Portanto, devo estar tranqüila e tão calma como se houvesse conseguido o que desejava.

A indiferença pelo êxito daquilo que empreendemos é um sinal necessário e certo da pureza de intenção.

O segundo sinal é a alegria pelo êxito ou pelo progresso espiritual de outrem.

Se vossa intenção é reta e pura, deveis querer tudo o que honra, contenta e glorifica a Deus. Se, junto de vós, outros fazem o bem; se, na mesma obra, alguém consegue melhor resultado do que o vosso; se é maior o sucesso de um empreendimento semelhante ao vosso; não vos deixeis vencer pela desconfiança, ciúme, amargura ou tristeza; rejubilai-vos sinceramente, de todo o coração, porque Deus foi glorificado, Falta pureza de intenção às pessoas exclusivistas, que só pensam nas próprias obras e no bem que realizam, e, com mal disfarçado despeito, em toda parte vêem concorrentes e rivais, aos quais gostariam de afastar ou sobrepujar.

Do mesmo modo, falta-vos a pureza de intenção, se em presença de alguém que se esforça, progride e se aperfeiçoa, ficais contrariadas, irritadas - não digo se experimentais uma nobre e santa emulação, o que é bom e legítimo - e se em vós existe algo que deseje impedir esse progresso. Que vos aborrece.

Diante do progresso dos outros ou diante do bem que realizam, reconhece-se a pureza de intenção pela alegria sincera e verdadeira que se experimenta, ou que, ao menos, livremente se desejaria experimentar, desprezando todo o sentido contrário.

O terceiro sinal da pureza de intenção é nada preferir voluntariamente e a nada se apegar de maneira absoluta. 

Vossas tendências podem ser naturais ou devidas à graça. Podeis, espontaneamente vos sentir mais atraídas por uma coisa do que por outra: algumas dentre vós são mais inclinadas a vida interior, outras à vida ativa; algumas dedicam a visitar os pobres, a cuidar dos doentes, outras a instruir as crianças e os retardados. Mas, quando necessário, e quando vossos superiores o exigirem, deveis estar preparadas para de boa vontade sacrificar os vossos postos pessoais e vos consagrar àquilo que é determinado pela obediência.

Antes de tudo deveis estar de tal maneira presas à vontade de Deus que, quando está vos for claramente manifestada, estejais dispostas a cumpri-la generosamente, não obstante vossas antipatias e os necessários sacrifícios de vossas inclinações.

A nada se apegar de maneira absoluta, exceto a vontade de Deus, é o terceiro sinal da pureza de intenção.

O quarto sinal é não desejar nem procurar o louvor ou a aprovação dos homens pelo, bem que fazeis, e não perder a calma nem a paz interior se, ao contrário, receberdes apenas censuras e repreensões.

Deveis pensar: se cumpri meu dever, se realizei a vontade de Deus, fiz tudo quanto desejava; o mais me é indiferente.

Se em vosso coração não se encontram esses quatro sinais da pureza de intenção; se um só vos falta ou se existem de maneira incompleta ou imperfeita, e porque vossas intenções não são inteiramente puras e que vossa simplicidade não é verdadeira ou talvez esta virtude vos falte de todo.

Esforçai-vos por adquiri-la, esforçai-vos por aumentá-la cada dia! Para que produza todos os frutos e para que os produza em abundância, seria necessário elevá-la ao mais alto grau e fazê-la atingir a perfeição.

Seria necessário ter o coração semelhante ao da mulher a que se refere santo Afonso de Ligório. Encontrada na Palestina por um dominicano companheiro de são Luís, ela carregava numa das mãos um vaso cheio d'água e na outra segurava uma tocha acesa. Perguntou-lhe o religioso o que significava tal aparato: "Com esta água, respondeu-lhe, desejaria extinguir o inferno; e com esta tocha, destruir o céu, a fim de que doravante servíssemos a Deus não pelo medo do inferno ou pela esperança do céu, mas unicamente por amor."            

Seria necessário exclamar constantemente com são Bernardo: "Pudesse eu, Senhor, amar-Vos por Vós mesmo!" não para ser feliz em amar-Vos, mas unicamente para Vos satisfazer e para contentar o Vosso coração!

Seria necessário poder dizer, como o divino Mestre: "Não procuro a minha vontade, mas a vontade dAquele que me enviou ... Faço sempre o que é do seu agrado." (S. João, VIII, 28-29) Teríeis alcançado, então, a perfeita simplicidade.

(A Simplicidade segundo o Evangelho, Instruções às senhoras e às jovens por Monsenhor de Gibergues, 1945)