segunda-feira, 29 de maio de 2017

Remédios para as tentações contra a pureza



Os Santos foram tentados e não se queixavam. Resistiam. Se, após algumas escaramuças, vos declarais fatigada, achando a luta dura demais e demasiado longa, é que nunca compreendestes esta palavra tão enérgica do apóstolo: “Na vossa luta contra o pecado ainda não resististes até o sangue!”

Sob a dentada das tentações, sabeis o que faziam os santos? Flagelavam-se, dilaceravam-se com cilícios e pontas de ferro, mergulhavam-se em tanques gelados, rolavam-se nos espinhos ou em carvões ardentes!

Eis aí, consoante a história, a que grau de heroísmo levavam eles a luta contra tentações terríveis. Deus não pede mortificações semelhantes. 

Pelo menos podeis reconhecer que o que Ele reclama da vossa fidelidade é bem pouca coisa em face de tais combates. Sucede, ainda, que esse pouco não se deve regateá-lo, e que o perigo aí está sempre para exigi-lo. Se importa não aumentá-lo exagerando-o, também não se deve desconhecê-lo ao ponto de descurar os meios de vencê-lo.

O inimigo aí está; ronda incessantemente para empolgar a presa que ele cobiça. O esforço humano é insuficiente para triunfar dele sozinho, a vitória só de Deus pode vir.

Quais são, pois, nessa luta, os meios a que devereis recorrer e que, como auxílio divino sempre oferecido, assegurarão a derrota do inimigo?

a) Pedir a Deus

Sem o amparo especial da sua graça não se pode conservar a pureza. Esta virtude, mais ainda do que outras, está acima das puras forças humanas. Por isso é preciso pedi-la Àquele em quem tudo podemos quando Ele nos vem fortificar.

Durante a tentação, esquecer-se de rezar é parecer-se com o soldado que vai para o combate sem armas.

Quanto mais tentada vos sentirdes, tanto mais deveis rezar. Se a criança cai, é porque recusa a mão do pai; se o cristão sucumbe, é porque não rezou. Ninguém é jamais vencido senão por sua culpa.

“Minha graça te basta”, dizia Deus a São Paulo, e esta palavra Ele a repete a todos os que são tentados. E, no entanto, muitas almas, ao invés de recorrerem instintivamente a essa arma soberana, deixam-na cair por causa da sua perturbação!

b) Vigiar os próprios olhares

Como Jeremias falando das horrendas calamidades da sua nação, a respeito dos males que a vista ocasiona, tem-se repetido muitas vezes que “a morte entrou pelas janelas”. Esta figura é muito expressiva, mas Santo Agostinho nos assinala o mesmo perigo de maneira mais direta. Escreve ele: 

“Aquele que não guardar os olhos não poderá guardar o coração. O olhar produz o pensamento, que pode provocar o desejo, o consentimento, o hábito, a necessidade e a morte”. 

Isto ajuda a compreender a reflexão de um homem que tinha ficado cego:
 “Perdi meus dois maiores inimigos!”.

A beleza atrai antes de emocionar, solicita os olhos. Holofernes foi preso pelos olhos em contemplando a beleza de Judite, David foi perdido por um olhar...Mas para que invocar testemunhos? Interrogai a vossa consciência... Acaso a maior parte das vossas tentações não foram provocadas por um olhar imprudente?

c) Conservar uma grande calma

Quando sentirdes vir o ataque, ficai bem na posse de vós mesma e nada exagereis. Sobretudo, não vos perturbeis! Lembrai-vos, então, de que Deus vos vê e vos protege, de que Ele não permitirá que sejais tentada acima das vossas forças, e, com rápido movimento do coração, recorrei a Ele com confiança, a fim de lhe atrairdes o socorro. Ele é o Deus da paz; então, sobretudo, ficai bem em paz, pensando em que Ele a isto vos convida por este doce incentivo: “Eu estou contigo, sou eu, fica sem receio!”

d) Mudar de ocupação

De lugar se possível, sair, distrair-se, criar uma diversão qualquer, ou então fixar com mais intensidade a atenção na ocupação presente. Será essa uma forma de resistência. E São Tiago disse: “Resisti ao demônio, e vê-lo-eis fugir”.

e) Fugir da ocasião

A única força humana, na circunstância, é ter medo de si. À beira do precipício, recuar é avançar. Escutai São Francisco de Assis: “Eu sei o que deveria fazer, mas não sei o que faria, se estivesse exposto à ocasião!...”
E haveríeis de ir, vós, deliberadamente lá onde sabeis que o perigo vos espera, vos ameaça?

f) Não brinqueis com a tentação

Não se brinca com o fogo. Não podeis ficar indiferente ante o aparecimento da imaginação que acarretaria a idéia maléfica. Ceder um pouco é enfraquecer-se a si mesma, não é enfraquecer a tentação. Mister se faz, pois, sem se perturbar, enxotar o mau pensamento assim que se apresenta.

Se o deixarmos penetrar sem reagirmos suficientemente, aos poucos ele desce ao coração, opera no organismo, causando nele uma moleza deprimente; é, se, mormente por causa de faltas precedentes, ele aí achar terreno propício, pode então ser preciso um rude trabalho para expulsá-lo!

Diz o Pe. Antonino Eymieu: 

“É mais fácil afastar o primeiro pensamento do que lhe suprimir as conseqüências. É mais fácil não semear a glande do que arrancar o carvalho. A idéia é o desfiladeiro por onde passa tudo o que entra na nossa consciência; é, pois, aí que cumpre estabelecer o controle e, se preciso, oferecer batalha. É o ponto estratégico a ocupar para ficar senhor de si”.

O inimigo pede-vos apenas um segundo de atenção, insinua que tem só uma palavra a vos dizer; mas essa palavra seria a faísca numa fogueira, quiçá numa pólvora. Atenção! E sede intratável para com ele desde o início...

...Vigilância, pois! Que não penetre em vós “a água impura!” há tarefas cuja última marca e cuja influência funesta sobre a vida nunca se podem suprimir, mesmo quando foram apagadas pela misericórdia divina!

g) A humildade

A tentação é uma humilhação. Aceitemo-la de bom grado, ela nos fará bem. A este respeito, eis os graciosos conselhos de Santa Teresa do Menino Jesus:

“A cada nova ocasião de combate comporto-me como brava: sabendo que é uma covardia o bater-se em duelo, viro as costas ao meu adversário sem nunca o olhar de frente. Porque procurardes colocar-vos acima da tentação? Passai por baixo, mui simplesmente. É bom para as grandes almas voar acima das nuvens, quando ronca a tempestade; quanto a nós, temos apenas que suportar pacientemente os aguaceiros. Tanto melhor se ficarmos um pouco molhados, enxugar-nos-emos em seguida ao sol do amor”.

Desde que o demônio enganou nossos primeiros pais por estas palavras: “Sereis como deuses”, um orgulho instintivo faz o fundo de toda natureza humana.

“Nós crescemos numa adoração inconsciente de nós mesmos, e fazemos fumegar diante do nosso próprio ídolo um incenso que nos cega. Por isso, aos poucos Deus se retira... depois se vinga entregando-nos às enfermidades da nossa própria carne. A impureza é o castigo providencial do orgulho, como, contrariamente, a pureza é a flor natural da humildade. Pode-se, pois, estabelecer uma inegável correlação entre a humildade e a pureza”. (Tissier)

Há uma vaidade tola, um desejo de agradar, uma necessidade de aparecer e de se fazer notar, que podem arrastar a donzela a certas leviandades, e mesmo mais longe...

Menina, sede bem humilde, e permanecereis sempre bem pura. Em compensação, se sentirdes em vós o orgulho, tremei!...

Alguém perguntava ao demônio, que falava pela boca de um possesso, por que era que ele nunca tentava uma alma de virtude exemplar. E ele respondeu: “Ela é orgulhosa demais da sua pureza para que eu lhe perturbe o orgulho!...”

h) A alegria

Oh sim! A alegria, porque um caráter alegre, ou que procura sê-lo por virtude, é mais apto que outro para a luta. Os tristes são e serão sempre uns tristes santos. A tristeza habitual oferece um campo incrível à tentação. Se essa tristeza, qualquer que lhe seja a causa, não for combatida, se for alimentada, se for cultivada, a alma não tem mais impulsos, um nada pode fazê-la soçobrar.

Tende, pois, e alimentai em vós a todo transe essa santa alegria de que falaremos mais adiante. Ela é uma força, um dever; “nascida, um dia, do sorriso de Deus”, ela enflora a vida e facilmente se torna um poder incrível.

i) Conservar a confiança

Apesar de tudo, mesmo se a tentação devesse ser longa e dolorosa! Porque:

1º - Deus circunscreve o terreno da luta. A vossa liberdade permanecerá sempre inviolável e inviolada. Pode o demônio bater à porta de uma alma, só penetra nela se ela o deixar entrar.

2º - Deus fiscaliza as operações; como assegura o apóstolo, podeis estar firmemente convencida de que Deus não vos deixará tentar além das vossas forças, e a sua graça corresponderá sempre ao grau da tentação.

3º - Ele vos protege pelos seus anjos e especialmente pela Rainha dos anjos, e finalmente Ele próprio intervém.

Lembrai-vos sempre de que, atacando-vos, o demônio tem mais em vista Deus. É a obra da Redenção que ele quer destruir atraindo-vos ao pecado. Deus deve, pois, a si mesmo defender-vos.

j) Desprezar a tentação

Um teólogo dá o conselho seguinte:

"Por que não opor mui simplesmente às provocações dessas moscas importunas a indiferença do asco e do desdém? Eis aí um bom remédio: a indiferença, o desprezo. Deixai passar, sem atentar nela, a onda de escuma lodosa que a corrente da vida arrasta.

Nada vale tanto como esta atitude. O demônio é todo orgulho. O seu maior suplício será a humilhação pela qual uma criatura humana o esmagará com seu desprezo. Quando uma gota de água vos salta na roupa ou uma mosca vos vem ao rosto, não tendes essas cóleras, esses desesperos, essas angústias que acompanham às vezes a resistência às tentações. Enxugais a água com um reverso de mão, enxotais tranqüilamente a mosca, e está acabado."

São Francisco de Sales dá o mesmo conselho: 

“Combater um inimigo é sinal de que se faz caso dos seus ataques e da sua força; mas, quando o desdenhamos, sinal é de que o temos por vencido. Para o diabo, nada o enxota tanto como o desprezo, pois o seu orgulho não pode sofrer ser desprezo, pois o seu orgulho não pode sofrer ser desprezado. Ele persegue os que o temem e foge dos que o desprezam”.

Fazei grande caso deste conselho, que pode ser dos mais úteis quando a tentação for facilmente superável. É esse um meio muito prático, quer de fazer cessar o ataque, quer de não vos expordes a lhe agravar a intensidade. Porque, se a gente se ocupa da tentação e, sobretudo, se com ela se preocupa de maneira excessiva, ela redobra, ao passo que o vigor da resistência se enfraquece.

Aplicai-vos, entretanto, a só empregar esse meio seriamente e com oportunidade. É mister precatar-se de confundi-lo com uma espécie de apatia, de indiferença ou de displicência, que produziriam como que fatalmente uma triste derrota, ou que já poderiam constituir o consentimento culposo, por falta de resistência positiva no caso de perigo sério.

Além disso, cumpre notar que as tentações impuras podem às vezes apresentar um caráter de violência que as formam bem penosas em certas horas, nas quais a alma fica como que afogada num oceano de trevas; ela sente, por assim dizer, a lama subir a tal ponto, que só a extrema ponta da alma sobrenada, podendo dar asilo à vontade que resiste a que não quer ser vencida.

“A vossa liberdade diz Mons. Gay, está nesse ponto. Esse cimo tem a saliência requerida para que o doure o sol divino, tem a extensão suficiente para que Jesus ponha nele o pé”.

Nesse caso, a tentação já não é mais a mosca importuna que um gesto pode enxotar, é uma verdadeira tempestade. Só Jesus poderá reconduzir a calma à vossa alma. Caí, pois, de joelhos aos pés desse divino Salvador, orai-lhe com fé, com essa confiança que o toca mais do que tudo, e logo sentireis a pobre barquinha da vossa alma flutuar na calma e na tranqüilidade.

(A formação da Donzela – Pe. José Baeteman)