segunda-feira, 1 de maio de 2017

Donzelas cristãs: O esplendor - Parte II



O esplendor da felicidade

Cristo disse: "Felizes dos corações puros". Daí vemos que uma deriva da outra: pureza e felicidade.

Muitos naturalmente, protestam. Para eles existe o "Prazer" e, como explicação:

Prazer - divertir-se.
Divertir-se - ser feliz.

Ainda mais abaixo acrescentam:

Pureza - privação.
Privação - tristeza.

Eis tudo!

Assim tudo explicam. Mas será que pensam mesmo dessa maneira? E, principalmente, será essa a verdade? Se o é, porque, então, as pecadoras se aborrecem de si mesmas, dos outros e da vida? Porque têm tanta amargura? tantas revoltas? tanta "negrura" na vida? tanto nervosismo? porque a alegria soa tão artificial como o seria, numa velha torre, o tanger simultâneo dos sinos para as núpcias e para o cortejo fúnebre? os cadáveres de crianças que os rios fazem rolar à noite, por debaixo das pontes, não são em geral cadáveres de virgens puras? O desespero faz suicidas, ousarão dizer que a pureza produz desespero?

Terrível ilusão. Dolorosa mentira.

O que engana é a exigência de sacrifício que a pureza acarreta e a austeridade de que tem necessidade para poder nascer, renascer e viver. Fruto saboroso mas de aparência espinhosa, palácio de fachada sombria, assim a pureza que, para ser uma alegria, requer, antes de tudo, realizar-se. Aquelas que a possuem encontram, nas ruínas dos prazeres recusados por um golpe de vontade, a paz, a força interior, o sentimento da própria dignidade que irradia uma deslumbrante alegria. Que se nota nos retratos de santa Teresinha do Menino Jesus? E como não se encontram jovem puras somente entre as Carmelitas, o sorriso daquela moça, o olhar desta outra, não o testemunham suficientemente? se, como acontece comumente, neste sorriso e nesse olhar encontramos, brilhando, a última gota de lágrimas vertidas ainda há pouco, impedirá isso que a alegria seja verdadeira e o testemunho eloqüente? Não se poderia ser ao mesmo tempo feliz e sofredora enquanto que, ao contrário, muitas vezes se é voluptuosa e desolada?

O esplendor da alegria nas pessoas puras! Até as culpadas o vêem e dele ficam invejosas. Quando encontram aqui e acolá uma companheira cujo sorriso as inebria, deixam-na cair numa cadeira e, soluçando, exclamam: "Ela é feliz, sim... Ao passo que eu!..."

"Ao passo que eu !..." Oh! esta queixa, esta confusão, este grito em certas bocas!...

É que tudo se paga. Existe uma lógica para as coisas, sejam elas belas ou não... Quem se engana no caminho a tomar nunca alcançará a meta desejada. A pureza tende à verdadeira vida, que é toda alegria. A impureza tende à morte, que é de fisionomia sombria e de olhar parado.

A pureza é um jugo e um fardo. Mas é o jugo do Mestre Jesus, e é suave. É Seu fardo, e é leve. Eis porque as puras irradiam a alegria dos seres livres. As outras, as que suportam o jugo martirizante e o fardo esmagador, desprendem, do ser desprovido de nobreza, a insolência de suas ambições, o desencanto em que degeneram as várias experiências, a humilhante resignação das escravas, das vencidas. Que verdadeira alegria possuem para as aureolar? Nada têm, a não ser cinzas, chagas e um grande vazio. É menos fácil extrair de tudo isso um único gramo de luz do que conseguir perfume de um ramo de rosas secas.

O esplendor da suavidade

Doce como o mel. Suave como um cordeiro. Acariciante como um veludo. A doçura é o contrário da violência, da cólera, do mau gênio, das reações brutais. Não é uma pequena virtude, é um misto de força e amor. Esse mel se encontra na boca escancarada do leão. Foi assim que Sansão o provou. Os suaves são senhores de si mesmos, acalmam as próprias tempestades, abafam os regidos do vulcão íntimo. Têm a mão aberta e pronta para a carícia em lugar do punho fechado que vai esmurrar. São censurados por serem macios demais, sem consistência. A  censura não tem fundamento. Na realidade, a paciência está-lhes apoiada pelo vigor e os golpes que não desferem foram retidos pelo coração forte e indulgente. Os seres puros não podem deixar de ser fortes, pois venceram na luta perante as pessoas e as coisas. Mas essa força transforma-se em suavidade, uma vez que impregnada de caridade e de paz. Pelo menos, assim devia ser normalmente.

A jovem que adquiriu a pureza, e a defende dia a dia, desconhece os ímpetos de raiva, de revolta e de inveja. Não é, ou não é mais, a serpente erguida, pronta para os ataques furiosos e os assobios sinistros. Não faz com que aqueles que a amam sofram as conseqüências de seus desgostos pessoais. Não é irritável como a apaixonadas nas horas tumultuosas.Não despede as vigilantes afeições que a querem auxiliar. Como não tem veneno em baixo do dente, não sente necessidade de morder para aliviar o rancor ou vingar a derrota. De antemão se sabe qual o acolhimento que se terá sem termos de recear essa indiferença ou essa recusa em que os pecadores são costumeiros, pois são volúveis, desajustados, dependendo de uma nuvem do seu céu, de uma carta na caixa, de um malogro em suas esperanças, dependendo da vida, enfim!...

O esplendor da paz

Duas jovens se querem com uma bela amizade. A confiança é plena. Amando-se, auxiliam-se e protegem-se mutuamente.

E eis que a crise agita uma delas. A vida soprou seus ventos de tempestade. Os rumores do prazer mergulharam nela. O tumulto das paixões brame-lhe no coração. Eis sonha. Treme. Está absorvida. É a luta íntima e são suas destruições. Atrativo e, ao mesmo tempo, pavor do mal. Necessidade de estar só. A tempestade enfurece o lago e o coração; quase barquinho frágil, parece assombrar.

No entanto a outra, mais vigilante, continua radiosa e serena. Que contraste! E o refúgio, para aquela que, angustiada, sente sossobrar, o refúgio está justamente aí. Da alma de sua amiga desprende-se uma suave serenidade. Não a serenidade insensível do penhasco orgulhosamente erguido contra as ondas, mas a serenidade das noites calmas quando nada parece perturbar a harmonia das coisas, sob o olhar vigilante das estrelas que surgem.

Abençoada vizinhança! Abrigo seguro e acolhedor. Contra as ameaças brutais ou os acenos maliciosos, a amiga a ele recorre como uma criança assustada que se atira aos braços maternos. E não é necessária uma palavra, basta um único contato de alma para que a calma volte ao coração, pouco a pouco, recupere o ritmo regular e sinta cair a febre do sangue. Amizade pura, remédio contra o falso amor. O esplendor da paz, tão misterioso, tão real, tão benfazejo! Coisa difícil de exprimir, mas fácil de negar, só aquelas que a experimentaram nas horas perigosas da juventude é que conhecem a esplêndida verdade, visto trazerem consigo a incomparável recordação.

O esplendor da nobreza

Nobre é o contrário de ignóbil, e ignóbil significa que não merecemos ser conhecidos porque, se o fôssemos, só mereceríamos desprezo.

A nobreza é uma forma de grandeza, um modo de superioridade, acima da banalidade.

Dá direito, a quem a possui, a uma humilde altivez. Para quem a vê, cria o dever do respeito que se curva e da confiança que admira.

Pela pureza, as puras possuem uma nobreza autêntica. A virtude brilha, a alma triunfa, o coração se espiritualiza. São o que devem ser. Não sofreram ou não guardaram vestígio de nenhuma tara vergonhosa. Não são belezas profanadas nem esplendores cujo brilho se apagou. Não deixam que sua estrela se arraste na lama. A marca das decaídas não está impressa em sua fronte. Constituem uma aristocracia moral que encontra em si mesma a mais segura consagração.

Aristocracia reconhecida por aqueles, ao menos, cujo julgamento é digno de se levar em conta e que têm o senso do valor como o artista o tem da beleza.

Mas as impuras! Como sua queda foi grande! Delas dizia a Escritura que "o ouro se transformou em chumbo". A casa de Deus transformou-se em estábulo. E, como dizia São Paulo, "o vaso de honra" é, agora, o vaso da infâmia... Passar do gênio à idiotice, da fortuna à miséria, não é das piores decadências. Os farrapos com que se cobrem os escravos são menos desonrosos nas costas de um rei do que esse trapo de pecado com que passou a cobrir-se aquela que um dia foi bela e respeitada.

Faz às vezes de sua vergonha uma terrível experiência. Faz, agora a comparação... Não mais se estima, a consciência grita alto a confiança que ainda se lhe dá: "Se soubessem!" diz ela para consigo.

Enquanto que, orgulhosamente, finge estar segura de si mesma, intimamente preferiria esconder-se. Um olhar puro de criança fá-la baixar os olhos. Lê a própria condenação em todas as fisionomias cândidas. Caso consiga alguns triunfos, eles não a fazem esquecer a miséria em que se encontra. Vê  que o mundo zomba das feias, das pobres, das velhas e quem sabe se não faz coro com ele? Mas ela sabe, pois é uma evidência que a martiriza, que a decadência não está em ser pobre, nem feia, nem velha, está em ... ser... impura... E ela o é!

Conclusão

Em tudo que vimos, isto é, vitórias que a pureza supõe, sacrifícios que exige, não haverá algum exagero? Encarar as coisas deste modo não será talvez vê-las sombrias, piorar a realidade, afim de torná-la mais comovente, bater na água para provocar espumas? melhor do que ninguém, podem as interessadas dar resposta. E essa resposta, sendo leal, se baseará no que escrevi.

Quando São Paulo, o apóstolo da caridade e da virgindade, iniciou suas pregações pelas grandes cidades pagãs, seu coração sentiu-se mal. A consciência gritou-lhe no peito, como que protestando indignada. Era feio, era sujo. O vício imperava. A sensualidade era a deusa do lugar. Na cidade, a única coisa pura que havia era o céu azul. quanto ao resto... o resto... Para uns, a vida era um gozo, enquanto que, para outros, não passava de aviltante servidão. A alma era sufocada pelos sentidos, como um ferido sob um montão de cadáveres.

Pregar a palavra "castidade" assemelhava-se ao gosto inútil e louco de um semeador que semeia o trigo no gelo ou atira as pérolas ao chiqueiro. No entanto, a palavra foi ouvida. O ideal brotou. Houve virgens puras. Mas quem percebeu seus sofrimentos mais secretos, suas heróicas resistências, seu sublime esforço, seu rigoroso e tímido recato? E tudo isso era bem necessário, sob o risco de logo depois desfalecerem, vencidas, e voltarem a ser iguais às outras. Quanto a essas últimas, bem sabemos que espécie de sorriso desabrochava de seus lábios pintados!

Para algumas, aliás bastante numerosas, o caso se apresenta do mesmo modo. Sim, é o mesmo, apenas menos complicado, menos angustioso. Em nossa civilização existe tanto paganismo vivo ou renascente! A árvore de onde pende o fruto proibido está plantada à beira de tantos caminhos! Existem tantas serpentes silvando sob as folhas verdes! Quantas jovens imprudentes não são vítimas do encanto de que se reveste a tentação, fascinadas pelo olhar meigo e terno! De maneira que,  para não ir aonde tantas vão, para não olhar nem por um minuto o que tantas olham, não se deixar morder no calcanhar nem ferir o coração, é necessária certa altivez no andar, aliada a uma sábia vigilância. Inês, Lúcia, Águeda só conquistaram a pureza aceitando o heroísmo até à morte. Para se tornarem suas dignas irmãs em Cristo Jesus, as jovens de hoje devem munir-se de idêntica coragem e suportar tão grandes sacrifícios.

"Custa caro", diz o Apóstolo, viver casta e piedosamente.

E, no entanto, é preciso, seja qual for o preço desse ideal. A mensagem do Mestre continua sendo o programa absoluto das jovens gerações que desejam tornar-se divinamente belas. O Sermão da Montanha foi pronunciado para todas as épocas. No ano 30, como ao ano de 1030, como no ano 10030, caso o mundo ainda viva: - "Bem-aventurados os corações puros". Foi dito pelo Mestre diante do lago de Galiléia. Foi repetido por São Paulo diante do lamaçal das cidades gregas e romanas.

É dito ainda no limiar da alma, ao ouvido de todas as jovens. Sempre. Em toda a parte. Apesar de tudo. Porque só aí está a verdade, o dever. Impõe-se até a quem a rejeita. Aqueles que não a conheceram serão julgados, e deixar de praticá-la, porque exige esforço, é reconhecer-se covarde quando a coragem cansa e pecadora quando o pecado atrai.

Uma cristã não pede explicações sobre: "Bem-aventurados os corações puros". Talvez trema um pouco antes, ou, então, core. Seja trêmula ou enrubescida, aceita-a porque o Mestre falou e só Ele possui as palavras da Vida Eterna. Sabe que cedo ou tarde o Mestre terá razão e, enquanto espera ela mesma fazer a própria experiência, seja nas manhãs de feliz pureza, seja nas noites de triste pecado, entrega-se inteiramente à palavra infalível. Quantas não se arrependeram por não terem acreditado! Milhares de outras se desonraram por não acreditarem! Outras, ainda, morreram culpadas e desesperadas por terem acreditado no contrário! E haverá alguma dentre elas que tenha sido enganada pela santa palavra? Onde  encontrar os mais belos sorrisos nos lábios de vinte anos? Os mais lindos olhares humanos, quais os olhos que os possuem? O vício é triste, a sensualidade sombria. Só a pureza possui belos olhares e divinos sorrisos.

Louca por sua alma

As dificuldades aumentam. Jovens, se não existir alguma coisa em vocês que não seja mais forte, elas acabarão vencendo.

E que é essa "alguma coisa"?

O culto pela alma, a loucura por vossa alma.

Sem a loucura pela Cruz, dizia São Paulo, não há nem sabedoria, nem ardor, nem apostolado, nem dedicação. É a verdade, mais do que a verdade.

Sem a loucura por vossa alma, não pode haver pureza. De acordo com essa loucura é que se age, se vive, se morre. 

A jovem que tem "loucura por seu corpo" entrega-se sem receio a todos os gozos, e a ele sacrifica a vida. A jovem que tem "loucura por seu coração" entrega-o indistintamente a qualquer amor que a ele sacrifica a consciência. A jovem que tem "loucura pela sua beleza" tudo vê, tudo lê, procura tudo, tudo experimenta, tudo empreende, tudo usa e, moralmente, assim morre.

Somente a jovem que tem "loucura por sua alma" renuncia a tudo que pode escurecê-la, conserva-a intacta e a salva. Semelhante aos grandes patriotas que são "loucos por sua pátria" e morrem para que ela viva, assim ela, que é louca por sua alma, tem-lhe apego. E defende-a ferozmente. E esta alma não é indício de pureza? Quando se lhe pede qualquer coisa, estando a alma tranqüila, ela se dá, não se de recusa a nenhum sacrifício, sente-se pronta para qualquer imolação. Basta que, do meio das ruínas, a alma surja luminosa, viva, invulnerável. Se salvou a alma, satisfaz-se porque não perdeu coisa alguma. A pureza mantém a alma intacta, a alma conserva a pureza imaculada. Unem-se com um elo que quer ser eterno.

Ridículo, baixo, grosseiro, o mundo ri.
Risada satânica.

Quanto a vocês, jovens cristãs, não riam dela. Compreendam-na. Admiram-na. Imitem-na. 

Transforme-se nela.
Porque ela tem razão.

E é para ela que vai o nosso respeito comovido e nossa absoluta confiança.

(Jovens: Vocês e a vida - coleção moças, pelo Fr. M. A. Bellouard O.P. ; edições Caravela LTDA, 1950, continua com o post: Vocês e vossas leviandades)

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