segunda-feira, 24 de abril de 2017

Donzelas cristãs: O esplendor - Parte I



A coroa de estrelas

A Imaculada da Medalha apresenta-se cheia de luz. Em volta de Sua fronte uma coroa de estrelas, de Suas mãos jorra uma profusão de raios.

Símbolo que significa o esplendor da pureza.

Os pecadores não têm esplendor. Suas mãos não sabem fechar-se para o amplexo culpável. Quando se abrem, não é para dar, mas para aceitar. Ora crispadas com a avareza. Ora lânguidas com a volúpia, nervosas e abatidas, só deixam cair flores murchas. Se são feridas, de sua chaga só saí pus, mas jamais a claridade. Entre seus dedos mina, como se fosse uma água suja, o azedume das esperanças desfeitas ou das paixões esgotadas.

Sua fronte não tem estrelas. Talvez seja altiva e provocante, talvez arda em febre, mas não é luminosa. E como o seria? Somente a alma brilha, espiritualizando de antemão, para a glória eterna, a carne mortal. Quase que não tem mais alma. Sua alma está longe muito longe, agonizante ou embrutecida, nalgum canto obscuro de seu ser. Esgotando até o fim as últimas reservas, não tem mais forças para a iluminação de sua fronte e de seus olhos. As pecadoras são sombrias, pois o pecado é a própria noite.

A pureza faz a alma viva, clara e quente, ilumina o ser por inteiro. As virgens puras são as belas estrelas que iluminam a grande noite humana. Deslumbramento aliás discreto e agradável aos olhos, não os cegando.

Quando, pois uma jovem, de pé sobre a serpente esmagada, tendo o coração divinamente ferido, conquista a pureza, de seu sacrifício e de sua vitória emana uma luz pura como sua divina origem e alimentada pela própria claridade divina.

O esplendor divino

“Os corações puros verão a Deus”. Desde aqui eles O vêem, pois penetram o mais que é possível no mistério de Deus. Nesse olhar não existe sombra, por mais voluntária que seja, que o obscureça. Na pupila desses olhos não existe mácula e a tara do vício, claro, luminoso, esse olhar íntimo da alma com o qual se pode ver sem o auxílio de ninguém.

Nos impuros, a fumaça negra do coração culpado sombreia o pensamento, limita a visão. Quando por demais materializada pelos cuidados, a alma torna-se insensível às coisas do espírito. Do mesmo modo, e ainda mais tristemente, quando por demais embrutecida pelos erros carnais a que não nega consentimento, não se comove nem vibra com as coisas de Deus. Para ela, isso tudo não passa de simples quimeras, de sonhos tolos. E a esta alma, transformada em corpo de seu corpo, só interessa o que se possa apalpar com o contato quente das mãos apaixonadas, o que se apresenta com cores vivas; só interessa, enfim, a ternura demonstrada pelas batidas desordenadas de um coração de carne...

Para a pecadora é esse o grande castigo. Perdeu a Deus, o gosto por Deus, o amor de Deus, a compreensão de Deus. E Deus, que não vive nela, também dela não se separa. Lembro aqui a frase tragicamente verdadeira de Mirabeau a Barnave: “Nada tens de divino!”

Para dar a Deus, é preciso tê-lO e, para anunciá-lO é preciso com Ele viver. Dizia Jesus: “Quem Me vê, vê o Pai”.

Ninguém, aqui na terra, anuncia mais a presença viva de Deus do que uma virgem. Existe aí um mistério sagrado, uma realidade que a profundeza clara e infinita do olhar desvenda a quem é digno de compreender.

Assim como há um estado de graça para a alma sem pecado, também há um estado de graça para o sorriso, a ternura e as palavras dos corações puros, em que Deus habita.

Se não fosse esse o motivo, porque seria então que Ele é tão generoso para algumas criaturas? De onde vem esta paz com que as envolve, esta calma de que estão possuídas, esse fervor na oração que ilumina a alma, senão de Deus vivo que nelas realiza Sua admirável obra?

O universo fazia dizer a Ampêre: “Como Deus é grande, Ozanam!” E uma criança pura, com sua pureza de dez anos, com sua pureza de vinte anos, diz a quem olha:  “Como Deus é belo!” Os céus narram Sua glória. Alguns castigos demonstram Sua justiça. A ordem do mundo demonstra Sua poderosa sabedoria. O coração das mães demonstra Sua bondade. Jesus na Cruz é sinal evidente de Seu amor apaixonado.

Entre as vilanias deste mundo, e com elas contrastando, a pureza de algumas fisionomias, irradiando a suave inocência dos corações, atesta sua adorável santidade. Se semelhantes criaturas não mais existissem, pensaríamos que Deus abandonou o mundo ou que, metido Consigo mesmo, recusasse a deixar-se ver pelos homens pecadores.

O esplendor da liberdade

Ser livre é não ser escravo, não sentir sobre si qualquer constrangimento que prejudica toda iniciativa. Assim considerando a liberdade, as puras são livres. Essa liberdade é conseqüência da luta generosa e uma das recompensas de sua vitória.

Tanto nelas como em qualquer de nós, havia os instintos com suas tiranias, o corpo com seu peso, os desejos com suas exigências.

Pouco a pouco, porém, de tanto frearem, conseguiram um domínio tal sobre si que a consciência reina de modo absoluto. Para cada pecado não cometido, aumenta o poder da vontade, e nisto consiste a verdadeira liberdade.

Para cada triunfo do dever sobre o prazer, da alma sobre os sentidos, o prazer diminui seu poder de atração, os sentidos enfraquecem suas exigências. Desse modo se estabeleces, no íntimo dos seres puros, uma harmonia que mantém cada coisa em seu lugar: a alma sujeita a Deus, o resto sujeito à alma. Na verdade, fazem o que bem querem e não o que as paixões exigem, como bestas esfaimadas.

Não é obedecendo ao dever que se fica escravo, ao contrário, essa obediência nos faz livres. O que torna escravo é fugir ao dever, sujeitar-se ao domínio brutal das potências sensuais.

Eis o motivo porque as pecadoras não têm, não mais têm, quase que não têm, ou têm cada vez menos uma grande liberdade. Fazem o que não quereriam fazer. Um outro – o pecado – é que ordena, e elas obedecem. Ele pede, e elas dão. Com seu punho de ferro, ele sufoca os débeis sobressaltos da consciência, as últimas palpitações do ideal esquecido.

Sufocadas ao mesmo tempo pelas recordações e pelos desejos, apoquentadas por visões, torturadas pela necessidade, insaciáveis e saturadas, encantadas e desgostosas, elas se agitam à mais suave brisa, caem ao menor choque, correm a um simples aceno, cedem diante de uma pequena ameaça, acompanham o pequenino veio de água. Abandonam-se sem resistência.

Assim que o Tentador lhes apresenta a corda, elas mesmas amarram as mãos. Não saberiam dizer hoje o que será delas amanhã, sentem unicamente – e isso é bem uma escravidão – que são hoje o que delas fez a ocasião e que serão amanhã o que a ocasião de amanhã delas fará.

“Quem peca – disse Jesus – é escravo do pecado”. Com sua alma e sua vida, a impura é o comentário eloqüente e triste dessa frase de Cristo.

O esplendor da força

As puras são fortes. São corajosas. Lutaram vitoriosamente. Para elas, a pureza é uma conquista e, muitas vezes, para salvá-la, foi-lhes necessária uma defesa cerrada para a qual despenderam muita energia.

Supõe-se por acaso que essa harmonia interior é conseguida sem mais nem menos e conservada sem cuidados especiais? O domínio dos poderes do mal, o triunfo do espírito não deixa ser uma vitória. Mas elas não proclamam alto seu heroísmo, embora essa luta perdure enquanto houver vida.

Não são roseiras que vergam ao vento, não se deixam arrastar diante de um sorriso, não se entregam a primeira tentação. Resistem, firma-se.

E nisso é que consiste sua fortaleza. Muitas vezes, o esplendor que irradiam não é senão de calma e serenidade. E nada mais expressivo, visto que a força só é sagrada quando se desdobra em tranqüilidade e doçura.

Ao passo que as impuras!

Quantas vezes lhes escapam dos lábios a confissão de fraqueza desesperadora! Proclamam-na e a lamentam. E a história de sua vida cotidiana assim é escrita. Outras, porém, negam-na. Simulam denominar “força e coragem” o que não passa de grande audácia, escondem suas inúmeras quedas.

Vejamos! Será que elas se dominam? Fazem realmente o que querem? Resistem a uma tentação? Impedem um desejo de se manifestar? Quando o pecado tenta, podem freá-lo? E, quando a fascinação entra em jogo, não ficam imediatamente seduzidas? Não se entregam inteiramente um encontro, a uma lembrança, a um instinto que surge? E isso é força? O que em verdade encontramos na fisionomia que simula bravura é um grande abatimento. Cantar em altas vozes, falar grosso, rir, nada disso indica fortaleza. Muitas vezes prova o contrário. As interessadas negam-no, mas a própria vida o demonstra. E é justamente porque, ao invés de se conduzirem, deixam-se levar pelos acontecimentos, são uns entes fracos...

(Jovens: Vocês e a vida - coleção moças, pelo Fr.M. A. Bellouard O.P. ; edições Caravela LTDA, 1950, continua com o post:. O Esplendor, parte II)

Fonte: A Grande Guerra