segunda-feira, 13 de março de 2017

A esposa é como o fogo


Ou, melhor dizendo, o fogo é como a esposa



Trecho do capítulo “Feminismo ou erro em relação à mulher” do livro “O Que Há de Errado com o Mundo”.
A
tradição decidiu que somente metade da humanidade precisa ser monomaníaca. Decidiu que em cada lar há de haver um comerciante e um faz-tudo. Mas também decidiu, entre outras coisas, que esse faz-tudo deve ser uma faz-tudo. Acertadamente, ou não, decidiu que essa especialização e esse universalismo deveriam ser divididos entre os sexos, que se deveria deixar a inteligência para os homens e a sabedoria para as mulheres; pois a inteligência mata a sabedoria, e essa é uma das poucas coisas certas e tristes.

Mas esse ideal de capacidade compreensiva (ou senso comum), que é próprio das mulheres, deve ter se esvaído há muito, deve ter derretido nas pavorosas fornalhas da ambição e do ávido tecnicismo. Um homem tem de ser, até certo ponto, um homem de uma só idéia, visto que é um homem de uma só arma — e é lançado nu à luta. As demandas do mundo chegam diretamente a ele; a sua mulher, chegam indiretamente. Em suma, ele tem de dar “o melhor de si” (como pregam os livros de receita de sucesso); e que pequena parte de um homem é “o melhor de si”! Seu segundo e seu terceiro “melhor” são frequentemente muito melhores. Se ele é o primeiro violino, terá de tocá-lo a vida inteira; não precisará se lembrar que é um ótimo quarta gaita-de-foles, um razoável quinquagésimo taco de bilhar, um florete, uma caneta-tinteiro, uma mão no uíste, uma arma e uma imagem de Deus (…).

(…) Mas há somente uma forma de conservar no mundo aquela elevada leveza e aquela perspectiva mais calma que corresponde à antiga visão do universalismo; e esta consiste em permitir que exista uma metade da humanidade parcialmente protegida, uma metade a que as agressivas demandas da indústria decerto afligem, mas apenas indiretamente. Em outras palavras, em cada núcleo da humanidade é essencial a presença de um ser humano apoiado num plano mais amplo, alguém que não “dê o melhor de si”, mas que se dê por inteiro.
Nossa antiga analogia do fogo continua sendo a mais funcional. O fogo não precisa luzir como a eletricidade ou ferver como a água; importa que ilumine mais do que a água e aqueça mais do que a luz.
A esposa é como o fogo, ou, colocando as coisas em sua devida proporção, o fogo é como a esposa.


Como o fogo, é de esperar que a mulher cozinhe, e cozinhe melhor do que seu marido, enquanto ele lhe obtém o coque à custa de conferências sobre botânica ou quebrando pedras. Como o fogo, espera-se que a mulher conte a filhos histórias- nãos histórias que primem pela originalidade ou sejam obras de arte, mas simplesmente histórias, histórias mais interessantes do que contaria um chefe de cozinha. Como o fogo, espera-se que a mulher ilumine e ventile — não com alarmantes revelações ou com os mais selvagens sopros de pensamento, mas que o faça melhor que um homem faria depois de quebras pedras ou fazer prelações.
O que não se pode esperar de uma mulher é que suporte algo como esse dever de cunho universal, quando tem igualmente de suportar a crueldade direta de um trabalho competitivo ou burocrático. A mulher deve ser cozinheira, mas não uma cozinheira competitiva; professora, mas não uma professora competitiva; decoradora de interiores, mas não uma decoradora competitiva; costureira, mas não uma costureira competitiva. Ela não deve ter um ofício, mas vinte hobbies. E, ao contrário do homem, ela pode-se permitir desenvolver todas as qualidades em que alcançaria um modesto segundo lugar.
Isto é o que na verdade se pretendia com aquilo a que chamam “reclusão, ou mesmo “opressão” da mulher. As mulheres não foram mantidas nos lares par conservá-los estreitos; ao contrário, foram mantidas nos lares para conservá-los amplos. Do lado de fora do lar, o mundo era uma massa de exigüidades, um labirinto de vias estreitas, um manicômio de monomaníacos. E foi somente com limitá-la e protegê-la parcialmente, que ela se fez capaz de desempenhar cinco ou seis profissões e, com isso, aproximar-se tanto de Deus quanto a criança quando brinca de cem coisas diferentes. Mas as ocupações da mulher, ao contrário das da criança, eram todas verdadeiramente — e quiçá terrivelmente — frutíferas; tão tragicamente reais que nada as impediria de se tornarem meramente mórbidas, não fosse a universalidade e o equilíbrio da mulher. Isso é o que há de substancial na discussão que proponho sobre o papel histórico das mulheres.
Não nego que mulheres foram prejudicadas ou mesmo torturadas. Mas duvido que em algum momento tenham sofrido tortura maior do que esta que lhes impõe a absurda tentativa moderna de fazer delas a um só tempo imperatrizes do lar e funcionárias competitivas.
Não nego que, mesmo sob a antiga tradição, as mulheres tiveram vidas mais árduas que os homens; e é por esse motivo que lhes tiramos nossos chapéus. Não nego que todas essas variadas funções femininas foram exasperantes; mas afirmo que havia algum fim e sentido em conservar tal variedade. Tampouco nego que a mulher tenha sido uma serva; mas ela, ao menos, era uma serva faz-tudo. (…)



(…) Elas possuem a propriedade de, como o remédio, varias sua atuação de acordo com a doença. Para o marido mórbido, há que ser uma otimista; mas uma pessimista salutar para o marido tomado de uma alegria irresponsável e cega. Ela tem de impedir que o Dom Quixote seja pisado e que o brigão pise os outros. O rei da França escreveu: “A mulher sempre varia / louco o que nela se fia”. Que a mulher sempre varia é fato; porém, é exatamente tal fato que justifica sempre confiarmos nela.
Corrigir toda a aventura e extravagância ministrando o antídoto do senso comum não é — como os modernos parecem pensar — estar na posição de um espião ou de um escravo; é estar na posição de Aristóteles ou — baixando ao mais rasteiro dos níveis — de Herbert Spencer, é ser uma moral universal, todo um sistema de pensamento. O escravo bajula, o moralista integral censura. Em suma, é ser um trimmer, no sentido primeiro e verdadeiro deste ilustre termo — o sentido de “estivador” — que por alguma razão é sempre empregado numa acepção exatamente contrária — a de oportunista, vira-casaca. De fato, parecem supor que um trimmer seja uma pessoa covarde que sempre passar para o lado mais forte, quando, na verdade, o termo originalmente faz referência a um homem altamente cavalheiro que sempre passa para o lado mais fraco, tal como aquele que redistribui a carga de um barco indo sentar-se onde poucos estão sentados. A mulher é um trimmer, um estivador, e seu ofício é generoso, perigoso e ao mesmo tempo romântico.
(O que há de errado com o mundo —G.K. Chesterton)