segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

A língua, órgão da palavra

Por Cônego Augusto Saudreau




Quem ouve, responde; quem quer tudo ouvir, em geral, quer também tudo dizer; o abuso do sentido do ouvido não se separa, portanto, do abuso da palavra e ambos acarretam os mesmos males.


A necessidade de falar manifesta-se desde muito cedo; a criança, possuindo tão poucas idéias, já procura exprimir-las; se nada se opuser a essa tendência, ela se desenvolverá e poderá degenerar numa grande tentação. Falamos sem motivo, por leviandade, unicamente para dizer o que nos vem à mente, sem interesse as mais das vezes para os ouvintes.


Falamos por vaidade, para provocar elogios ou suscitar a admiração daqueles que nos ouvem. Falamos por malícia, para aliviar os sentimentos de antipatia, de inveja, e dar livre curso à vontade de difamar, de rebaixar o próximo, de criticar, de murmurar.


Embora não sejam motivos indignos os que nos levam a empreender a conversação, embora a prosa fora inocente de início, tais inconvenientes se insinuam com facilidade, sem que os possamos perceber.


In multiloquio non deerit pecatum: "Onde as palavras abundam, não falta o pecado".


A humildade é ferida; aproveitamo-nos de uma ocasião para nos fazer valer, atribuir-nos vantagens insignificantes, ou fazermos notar nossa habilidade, nossa prudência, nossas virtudes, nosso talento. A caridade é ofendida, dizemos aquilo que deveríamos calar; narramos aquilo de que não temos certeza; transmitimos uma impressão como se fosse uma realidade; julgamos, baseados em dados falsos ou incertos, ou sem levar em conta as circunstâncias, sem conhecer as intenções; aumentamos os fatos, exageramos pormenores sem importância, generalizamos fatos isolados; numa falta de fragilidade discernimos um defeito habitual.


Será, pensamos nós, que o Senhor, atacado em Seus membros, ferido em Suas afeições, pois deu a vida por esses que estão sendo difamados e alimenta-os com Sua carne, vive neles, quer unir-Se-lhes por toda a eternidade, será que possa ver com prazer esse falador, que se deixa impressionar pelo seu espírito, por suas palavras mordazes, que veja com satisfação usurpar o direito, que só a Ele pertence, de julgar os homens?


Não, as palavras contra a caridade afastam as graças, privam as almas das bênçãos divinas, e muitas pessoas, que se queixam de não mais receber as consolações da piedade, devem-no à imoderação da língua.


As paixões se irritam com essas conversações culpáveis; animamo-nos, excitamo-nos ao falar; o ressentimento motivado por uma injustiça, ou aquilo que assim julgamos, aumenta à medida que a ela nos referimos; a aversão que experimentávamos, cresce quando relembramos as faltas do próximo, ou apontamos os seus defeitos, e essa aversão se comunica aos nossos ouvintes.


O recolhimento torna-se então impossível, pois as idéias, revolvidas pelas palavras, ocupam o espírito e pouco lugar deixam aos pensamentos piedosos, à lembrança de Deus; os sentimentos assim despertados invadem o coração, comprimem e sufocam o amor divino ou, pelo menos não permitem senão raras elevações a Deus. Além do mais, o que foi dito será talvez repetido e de uma palavra imprudente, levada a pessoa interessada, nascem frequentes descontentamentos, rupturas, discórdias, ódios, palavras lascivas, ímpias, blasfemas.


Uma pequena chama, diz São Tiago, pode causar um incêndio capaz de devorar uma grande floresta; a língua é esse "fogo destruidor aceso pelo inferno", que pode "consumir todo o curso de nossa vida". "é um mundo de iniquidades", que, colocado junto a outros membros, "contamina-os todos", e pode levar o corpo inteiro à perdição.


Entretanto, se a língua pode causar danos terríveis, pode também ser o princípio de grandes bens; "por ela bendizemos a Deus, nosso Pai, e também por ela falamos mal dos homens, feitos à imagem de Deus"; "bênção e maldição", a oração, o louvor divino, assim como a maledicência, a blasfêmia e a impiedade, saem do mesmo órgão.


Feliz de quem a sabe reger; quem modera e regula suas conversações e "não peca por palavras é um varão perfeito"; dirige a sua natureza inteira com suas concupiscências; é senhor de suas inclinações, governa todo o seu ser pela língua, qual cavaleiro, que, pelo freio, dirige o animal; qual piloto que, com o leme, dirige todo o navio.


Mas o homem - é sempre São Tiago quem fala - que sabe domar as feras, não pode, por suas próprias forças, "vencer a língua", carece do auxílio de Deus, e Deus não dá esse auxílio senão aos homens sinceros e generosos que praticam o silêncio, se abstêm de palavras inúteis, procuram a solidão, e se privam de conversar com as criaturas para melhor conversar com Deus.


Quando o Senhor, para salvar Seu povo, elegeu a Moisés, dirigiu de tal sorte os acontecimentos que este último precisou deixar a corte agitada do rei do Egito, retirar-se para uma terra pouco habitada, e aí levar a vida tranquila e solitária dos pastores. Era grande a tribulação entre os filhos de Israel; parece que havia urgência em socorrê-los; entretanto, o Senhor deixou Moisés durante quarenta anos nesse país meio selvagem; e só o julgou ato a cumprir com a grande missão que lhe queria confiar depois desse longo retiro.


Foi no deserto que, desde sua infância, se refugiou São João Batista para aí crescer no amor divino e preparar-se a exercer seu ofício de precursor.


O próprio Jesus, nosso divino modelo, depois de trinta anos de uma vida escondida e frequentemente silenciosa, vai passar quarenta dias no deserto antes de iniciar sua pregação evangélica.


Desde então, todas as almas ávidas de perfeição desejaram o recolhimento e a solidão e os santos fundadores de ordem religiosa, sem exceção alguma, impuseram o silêncio como uma das regras fundamentais, um dos grandes meios de formação à vida interior, e reconhecem-se as almas fervorosas na maneira pela qual observam essa grande lei do silêncio.


Mesmo no meio do mundo, quem aspira a uma vida perfeita deve recear o turbilhão dos negócios, evitar, mesmo no exercício do zelo, o excesso das obras exteriores e impor-se horas de recolhimento, em que, só, com Deus só, se entregue a expansões afetivas e goze as doçuras de um colóquio todo celeste.


(O Caminho que leva a Deus, pelo Cônego Augusto Saudreau, edição de 1944)


Fonte: A Grande Guerra