segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

A moda

Por Padre Pedro Schmitz S.V.D

Publicado originalmente em A grande guerra (grifos de Letícia de Paula)

 

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Mas isto mesmo vale, igualmente, para uma cer­ta nudez “encoberta” que de várias maneiras se en­contra nas modas femininas, e que, nos vestidos, procura acentuar importunamente as formas do corpo, ou até apresentar tendências nudistas. Esta ostentação do corpo, francamente proposital, em última análise, deve sua origem a um modo de encarar a vida, cínico e pagão, e está calculado para o incitamento da sensualidade. Isto pode ser qualificado, simplesmente, de uma despersonalização da mulher, visto obrigá-la a ostentar-se como um ente meramente sexual, nos seus vestidos. Neste particular, um vestido por demais ajustado, é ainda bem pior e mais repugnante do que um decotado e de mangas curtas. Impossível é julgar tudo pelo mesmo padrão, e depende também imensamente de cada mulher, de como faz ela falar a sua alma, através de movimentos e atitudes do corpo.[1] O conceito de decência, em matéria de vestuário, de modo ne­nhum é antiquado para nós. Precisamente para sensualizar é que o vestido não deve servir; mas para espiritualizar. Tenha cada senhora uma certeza: Todo vestuário equivale a uma confissão: aqui, de uma cobiça má; ali, de uma nobre singeleza.


Duríssimas palavras tem merecido a moda femi­nina, tal como vem predominando nestes últimos anos. Ela visa, certamente, a comodidade e a econo­mia. “O chapelinho agarrado na cabeça, — palavras do dr. J. W. Samson — a saia curtinha (a qual nos últimos tempos alongou-se um tanto), o cabelo ar­ranjado num só golpe de pente (o que traz, ainda, o mau costume de “pentear-se também à mesa, nos hotéis, etc.), tudo isto está a serviço da moda.” [2] “Entretanto, o maior peso da moda de hoje é devido ao prazer, ou melhor, ao sexo. Por isto, ela sabe muito bem desnudar-se, cobrindo-se. Até, se crermos neste autor, “o ideal de beleza modista está intima­mente relacionado com o mister de variar o sexo do indivíduo”. E não sem ironia acrescenta ele en­tão: “O tolo homem impõe sua vontade à mulher, a qual, tanto mais prazerosamente, se lhe sujeita, julgando-a uma vontade... feminina” [3]. Com is­to, a moda acompanha “aquelas finalidades que vi­sam é menos afastar do que fomentar, menos de­fender do que aliciar...: o ser desejado cupidinosamente”. [4] Além disto, ela vem de acordo, principalmente, com as “aspirações de virilidade” dormitantes no mais íntimo subconsciente feminino” [5]. Concluindo, afirma ainda o mesmo autor: “Não padece a menor dúvida que a tendência de rejuvenescimento e de infantilização nas modas de hoje, e nos atuais conceitos de beleza feminina, tem suas raízes últimas, nos componentes impulsivos, homossexuais, pedófilos, incestuosos, mesmo da vi­da instintiva, normal, do homem”. [6]


Verdade é que não precisamos subscrever, em tudo, este terrível julgamento da atual moda femi­nina. Ao menos, porém, este julgamento nos paten­teia quão diversas correntes se podem distinguir nas modas, e quantas de fato se distinguem. São coisas enfim, que se prendem com a honra das senhoras. Uma admoestação, pois, às senhoras católicas, isto devia ser mais uma vez, a não imitar e julgar bo­nita, assim de todo irrefletidamente, qualquer in­venção da moda. Isto mostra, deveras claramente, que a voz admonitora da Igreja não provém de um criticismo bronco, mas, sim, da franca intuição da vida. Nos vestuários é bem permitido uma preocu­pação com a beleza e variação. Alegrar-se com um vestido novo, não precisa ser vaidade, mas é satis­fação do sentimento de estética. Um certo acomoda­mento com a moda, dentro do lícito e conveniente, pode ser perfeitamente justificado. E não é preciso rejeitar qualquer moda, só pelo fato de ser nova, ou por mostrar um estilo diferente do passado.


Neste sentido, finalmente, virá a posição social impôr também obrigações à mulher católica, às quais ela, só por modéstia a simplicidade mal enten­didas, poderá fugir.

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De: Padre Pedro Schmitz S.V.D - Vosso Corpo é Sagrado

Ensinamentos sobre o corpo humano aos cristãos hodiernos - 1943.

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Notas:

[1] Vgl. Um Sitte und Sittlichkeit, Katholische Schulorganisation 1926, S. 23 u. 95 ff.

[2] Die Fnauenmode der Gegenwart, eine medizi­nisch- psychologische Studie, Berlin und Köln 1927, S. 11.

[3] a. a. O., S. 3, 4.

[4] a. a. O., S. 8.

[5] a. a. 0., iS. 10.

[6] a. a. 0., S. 14.